Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

CoM oS pOeMaS nO fOrNo

Quanta coisa eu pensei e não fiz, e quanta coisa eu fiz sem pensar!!!

Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Pobres criaturas

Havia um lugar distante onde viviam pobres criaturas que sustentavam o peso de inúmeras insensibilidades e conjecturas bem elaboradas. O peso dos políticos, dos intelectuais, do crime organizado, da esquerda igual à direita, da vontade ininterrupta, da frustração (velha amiga), da falta de esperança, do excesso de esperança, do medo do futuro, do medo de perder o medo e tornar-se aquele que não tem nada a perder, o peso de ver seus filhos se tornando o que eles sempre foram, de olhar para a TV e pensar que tudo aquilo é um sonho do qual nunca acordaremos e acreditar que a vida é boa assim mesmo.

Neste mesmo lugar distante havia outros grupos, contudo alienados. Não alcançavam o número impressionante do primeiro, mas tinham sua importância relativa. Dentre os muitos que se revezavam estava um muito simpático: o dos intelectuais. Eram dóceis e cheios de boas intenções. Mostravam-se preocupados com o grupo das pobres criaturas e encontravam nessa preocupação uma maneira bastante eficaz de se sentirem úteis sem fazer absolutamente nada. Teciam longos artigos sobre as dificuldades das pobres criaturas demonstrando sua indignação ao mesmo tempo em que lapidavam seu magnífico estilo pessoal.

O grupo dos políticos, menos criativo, tinha intenções ainda mais egoístas. Queriam convencer as pobres criaturas da suma importância de suas atribuições. Estes entendiam os problemas das pobres criaturas e sabiam como resolve-los. Para tanto bastava que elas confiassem neles e os elegessem. Mas infelizmente este grupo tem hábitos inconstantes e, tão logo são eleitos, desaparecem com a mesma rapidez com que apareceram.

Os religiosos, doutrinas à parte, organizavam-se em torno do medo, da culpa e do mais importante: a salvação. Sim, meus amigos, os religiosos sabiam bem o que dizer a uma pobre criatura, sabiam tocar-lhes a ferida na medida certa que os fizessem frágeis e vulneráveis ao ponto de implorarem o colo de alguém que os acalentasse e garantisse a salvação em troca de algo muito simples: o desapego aos (próprios) bens materiais.

Muitos outros grupos surgem e encontram neste surgimento uma maneira de se destacarem daquele primeiro. Na cadeia social que esses grupos formam, as pobres criaturas representam o substrato do qual os demais extraem a seiva que lhes fortalece e mantém.

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Sobre eu ser budista

O budismo na minha vida é uma história interessante. Andava pelo centro de São Paulo aos 15 ou 16 anos com alguns trocados no bolso e um montão de idéias na cabeça, quando resolvi entrar num sêbo pra dar uma olhadinha, como sempre. Lá estava um livrinho azulzinho com um desenho que representava umas árvores, umas montanhas e um sol e trazia escrito em letras vermelhas maiúsculas " A IMPORTÂNCIA DE VIVER" e logo abaixo em letras azuis também maiúsculas "LIN YUTANG". Fui primeiro de tudo ao índice como é o meu costume e me interessei pelos incríveis nomes que esse chinês erradicado em Nova York deu aos cápítulos do livro. Um que jamais esqueci era "Uma fórmula pseudocientífica", outro marcante foi "O vagabundo como ideal". De imediato consultei meu bolso e disse ao homem empoeirado em meio aos livros: - Vou levar esse. Iniciava-se meu contato com o pensamento e as filosofias orientais (pois devem ser mencionadas no plural, sempre).
O livro do Lin Yutang não era sobre budismo, mas falava sobre uma maneira muito diferente da que até então eu conhecia de viver. Até aí viver era comer, dormir, fazer aparecerem uns trocados para comprar discos de vinil ou pagar a entrada da "Treibhause". Na verdade o tal livro trazia, em 399 páginas, um panorama bastante valioso das principais correntes filosóficas do oriente. Daí compreendi pela primeira vez que o Budha chamava-se Siddartha Gautama e havia nascido na índia e não era aquele gordinho sentado que constumava ver por aí cercado de moedas.
Então veio o livro "SIDDDHARTA" do Herman Hesse com tradução primorosa de Álvaro Cabral. Dali em diante foram buscas e mais buscas de obras que dessem conta de me esclarecer cada vez mais o pensamento desse príncipe que abdicara dos sabores da vida palaciana para descobrir a origem do sofrimento e retirá-lo da humanidade. Buddha tornou-se então o caminho e a luz que o ilumina. Considero-me budista desde então.
OM MANI PADME HUM

Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

GENI & O ZEPELIM


Nascera para servir e o fazia como se deve. Desde seus primeiros impulsos aos oito anos de idade, Geni decidira que seria o seu prazer a satisfação da vontade alheia. Encontrava em sua submissa condição um fetiche doentio de garantir que o outro se livrasse da ansiedade do desejo descontrolado. Queria as pessoas, homens, mulheres e tudo mais, libertos de seu peso e prontos para cheirar flores, vencer planícies, sorver poesia e quem sabe olhar o próximo com maior benevolência.
Assim vivia a doce puta daquela cidade que inteira a execrava. Eram insultos ferinos que cutucavam como ferro quente o coração daquela. Os mesmos que ela servia, na hora seguinte, esquecidos de suas sujeiras, engrossavam o coro que repetia infalível o que aqui não será pronunciado. Uma ode ao moralismo infame e repugnante que, tantas vezes, constrói os muros falsos que os protegem do medo de si mesmos.
Geni seguia límpida em sua lívida pornografia. Era instrumento de outras impurezas que com ela se purificavam. Entendia os corações humanos como os iluminados, sua beatitude as avessas exorcizava e redimia, curava as febres dos garotos de internato e o gelo das viúvas sem porvir. Geni era o bálsamo que, derramado, se deixava sorver pelas bocas desejosas dos que, não tendo gratidão, são pobres coitados.
Geni passeava calma entre o arvoredo do parque distante quando ouviu o vozerio de um grupo de homens. O silêncio das árvores que por um instante pararam de mover seus braços fez Geni perceber que algo ruim aconteceria. Tinha que correr. Era preciso correr como nunca havia corrido. Seu corpo cansado e lânguido não era habituado a esse movimento. Cada passo parecia difícil e inútil já que, sem quase nenhum esforço, os homens a alcançaram rapidamente. Tomaram-na de repente e sem nada explicar a arrastaram para um quarto sombrio onde pode ver um homem com ares de comandante desenhando círculos com a fumaça do fétido charuto. Quis saber quem era e aproximou-se, mas o homem levantando iniciou um ritual que duraria a noite inteira.
- Quero que me sirva, ou destruo a cidade.
Geni disse que nada faria, preferia amar com os bichos que deitar-se com tal homem cheirando a brilho e a cobre. Nesse instante tudo parecia chegar ao fim e o forasteiro, dela prisioneiro, mandou seus homens iniciarem o ataque. A cidade desesperada esperava um alívio para o medo e a incerteza. Todos desesperados imploravam em altos brados que a donzela os salvasse daquele terrível fim.
Queria livrar-se de tudo e voltar pra sua vida, o comandante não brincava e os canhões miravam a prefeitura, a igreja e o banco da cidade. Geni confusa e enojada dobrou seus joelhos controlando o asco e dali até o nascer do dia fez de tudo que sabia e tirou daquele homem mais que sua própria condição, e foi suja e obscena como querem esses homens.Ao amanhecer, uma nuvem fria escondia o zepelim prateado que partia em silêncio enquanto a heroína virava-se de lado e tentava dormir. Mas o som das pedras e os gritos, todos eufóricos com seus pudores feridos, não deixaram ela dormir.

Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

HOJE EU VI PÁSSAROS

Um incrível bando baixo, barulhento, malabarista, e principalmente vivo interrompeu a saída do colégio. De repente. Houve quem parasse e, cheio de uma infantilidade tão cara e preciosa, sorrisse olhando para cima. Não durou mais que um instante. E velozes e audazes e cheios de uma graça que somente o que é natural possui, desapareceram num átimo.

AS COISAS SEM IMPORTÂNCIA

O que importa são as coisas aparentemente sem importância, ou, somente aqueles que não se preocupam com as coisas que a maioria dos homens se preocupa, podem viver despreocupadamente (como disse o sábio de há dois mil e quinhentos anos).
Um bando de pássaros não diz nada realmente àqueles que não fazem distinção entre importância real e relativa. Importa saber que o que me importa mostra o que eu sou e quais valores cultivo. Minhas preocupações são o fruto da minha atitude mais essencial diante da vida e de tudo que ela envolve. Seja um bando de pássaros ao meio dia de uma quinta-feira comum ou centenas de vidas servindo de combustível à máquina que impulsiona a indústria da guerra.

Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

DIAS VERMELHOS

A luz entrava pela telha quebrada, atravessava o forro e encontrava seu foco exatamente no olho esquerdo de Pedro. Eram dez da manhã e o despertador ainda não havia disparado, aliás, nem deveria mesmo tê-lo feito, porque era sábado, mas por um capricho desses que ninguém pode explicar, Pedro tem o estranho costume de armar o despertador na sexta feira só para ter o infantil prazer de desliga-lo e continuar dormindo. Mas aquela luz em seu olho fez com que levantasse da cama. No banheiro a janela parecia estranhamente diferente, mas só quando chegou a cozinha percebeu que algo realmente sobrenatural sondava aquela manhã de sábado. A réstia de luz que o acordara era vermelha, a luz que entrava pela janela do banheiro era vermelha, tudo era vermelho, e ele não sabia porque. Parou um instante tentando entender o que acontecia, mas foi inútil. Confuso, vestiu uma roupa qualquer e pensou em sair para ter com algum vizinho uma possível explicação ou um consolo para sua aflição. Mas na porta parou um longo tempo, tentando encontrar coragem para se meter naquela luz. Finalmente, vencido pelo desespero, abriu um guarda-chuva e saiu rapidamente.
O sol, de tão incrivelmente vermelho, criava contra-luzes nas copas das árvores e parecia ser muito mais quente do que na verdade era. Na primeira casa depois da sua tocou insistentemente a campainha, atendeu-lhe o Sr Alberto com a mesma cordialidade de sempre:
- Sr Pedro, à que devo o prazer de sua visita?
- O Sr não está vendo?
- Sim, obviamente, o dia está estupendo...
- Está vermelho! O céu está vermelho, tudo está vermelho! Não está vendo?
- Vermelho? Em que sentido, é alguma metáfora?
- Metáfora? ...Um de nós deve estar louco.
Ao longo da rua tudo acontecia como de costume, as crianças brincavam, os cães latiam, as senhoras cuidavam da vida dos outros e etc...
Pedro seguiu atordoado, sem poder raciocinar muito bem. Decidiu ir ter com sua ex-esposa Laura. Na Rua Xavier de Toledo tocou o apartamento 34 e a mesma voz irritada de sempre:
- Quem?
- Eu, Pedro.
No elevador Pedro tentou acreditar que tudo aquilo não havia de fato acontecido, chegou mesmo a pensar que quando chegasse ao apartamento olharia pela janela e veria aquele mesmo céu azul e seguro de sempre.
- Oi Pedro, o que foi dessa vez, mais uma daquelas conversas profundas que não adiantam nada?
Pedro correu até a janela. O céu ainda estava vermelho.
- Laura, está vendo?
- O que?
- O céu, está vendo?
- Sim, e o que tem?
Saiu apressadamente sem se despedir. Voltou à rua, tentou rapidamente decidir seu destino: Lucio! Claro, seu melhor amigo haveria de compreende-lo, era sempre assim, fosse como fosse.
- Me diga, pausadamente, o que há com o céu?
- Bem, o céu... Lamento Pedro, hoje não estou para elucubrações. A Marta, você sabe, foi embora de novo, passei quase toda à noite naquele bar que você já sabe e...
- Lucio, por favor, me escuta: O céu está vermelho, compreendeu? Ver-me-lho.
- Pedro, por favor digo eu! Será o Benedito? Então quer dizer que o mocinho aí está viajando, e eu cheio de problemas, tenho que ficar aqui ouvindo as suas alucinações...
- É sério Lucio, eu não to viajando.
- Sério? Ta falando sério... Mesmo?
- É isso aí.
- Pode ser algum tipo de problema de visão, você sabe, com tanta poluição...
- Será que é isso?
- Olha, eu tenho um amigo oftalmologista, você sabe, ele é meio estranho, mas eu te dou o endereço e ...
Pedro pegou o endereço e saiu apressado.
O prédio antigo não era menos estranho que o homem velho de barbas longas e amareladas que escondia seus olhos atrás de uns óculos de lentes pretas.
- Bom dia, sou amigo do Lucio, ele me disse que o senhor...
- Ah o Lúcio! Como vai aquela figurinha? Rapazinho complicado hein? Olha, a Marta mulher dele...
- Escuta doutor, eu estou com um problema...
- Claro que sim.
- Desde hoje cedo vejo tudo vermelho.
- Curioso, muito curioso! O senhor fuma algum tipo de erva... O Senhor sabe...
- Não, isso já faz muito tempo...
- Quando foi que o Senhor começou a ver tudo vermelho?
- Hoje quando acordei... Fui dormir ontem umas duas horas mais ou menos, e hoje quando acordei, pronto! Tava tudo vermelho.
- Curioso, muito curioso! Sente-se ali, que eu vou examina-lo.
Pedro sentou-se na cadeira em frente de uma estranha máquina cheia de lentes de vários tamanhos e botões que acendiam e apagavam. Sentiu-se meio ridículo naquela situação, mas queria resolver logo aquilo. O velho com uma calma impressionante movia lentamente as lentes e perguntava:
- Que cor?
- Vermelho.
- E agora, que cor?
- Vermelho.
- Curioso, muito curioso!
- Mas o senhor só sabe dizer isso?
- Meu amigo, sinto muito. O Senhor tem as vistas perfeitas.
- Mas como, se está tudo vermelho?
- Não sei. Em todos esses anos de oftalmologia jamais vi coisa parecida. Sugiro que o Senhor procure outro especialista.
- Psicólogo?
- Psiquiatra...
Pedro saiu do consultório num estado que ficava entre um fatalismo mórbido e uma conformação quase cômica. Caminhou muito tempo, até que parou num camelô da Rua 25 de Março e comprou uns óculos escuros. Os óculos de lentes meio amareladas misturavam-se com o vermelho que o perseguia e formava uma tonalidade alaranjada, que não era de se desprezar. Pedro conseguiu até se divertir com a idéia de ver o mundo daquela cor. Relaxou. Fez o que tinha que fazer: aproveitou o Sábado.
O resto do dia correu de maneira extremamente agradável. Pedro divertia-se com as tonalidades novas que conseguia misturando seu vermelho com as lentes de várias cores dos muitos óculos que decidiu comprar. Tirava um, colocava outro, e outro ainda... Parecia uma criança. Ficou assim a tarde toda, e, na hora do pôr do sol, subiu no Terraço Itália e começou: Tira um, coloca outro, e outro. Ah que brincadeira legal!
Quando anoiteceu, Pedro decidiu ir logo para casa, dormir cedo, e aproveitar no dia seguinte cada minutinho daquele mundo multicolorido que ganhara de presente.
Amanheceu um Domingo deliciosamente ensolarado e vermelho. Pegou sua coleção de óculos e saiu pela cidade.
- Bom dia Seu Alberto!
- Bom dia Pedro! Lindo dia!
- Lindo dia!
Começou seu passeio no Parque do Ibirapuera. Cumprimentava a todos, indiscriminadamente:
- Bom dia amigo! Lindo dia!
Virou a cidade de cabeça para baixo, jamais aproveitara tanto um Domingo. Depois do parque, foi à feirinha do Bexiga comprar velharias, passou pelo MASP, visitou a Pinacoteca, o Centro Cultural, e ainda arranjou um tempinho para passar no Jardim Botânico e no Zoológico. Um Domingásso!
Satisfeito e cansado, voltou para casa e dormiu pensando em como agora sua vida seria interessante e diferente. Tudo seria novo, alegre, vermelho...
Amanheceu uma segunda-feira deliciosamente ensolarada e...
- Cadê o meu vermelho?
Abriu a janela afoito, e lá estava o dia mais normal de todos os dias normais. Nada de vermelho, só a mesma luz monótona de sempre.
Pedro suspirou profundamente, vestiu-se desanimado, e já ia saindo para o trabalho, quando voltou, pegou sua coleção de óculos coloridos, e saiu cantarolando.